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A dificuldade de estar em um mundo cheio de fronteiras, regras e compartimentos pode ter sido o motivo que levou Jean Cocteau a expressar a sua dificuldade de ter um só corpo, sendo múltiplo. E esse corpo diversas vezes autorretratado, por meio do desenho, da escrita ou do cinema, não teria sido o corpo escolhido, embora tivesse mãos prodigiosas. Coube, então, a essas mãos certo toque de Midas: transformar tudo não em ouro, mas em arte – uma conversa, a frivolidade, o riso, um sonho, a juventude, a beleza, a amizade, os costumes, a responsabilidade, o trabalho, a leitura, casas assombradas, a infância, a dor, a morte...A dificuldade de ser Jean Cocteau foi, também, fruto de uma armadilha construída pelas lendas que o envolveram. Cocteau foi, ao mesmo tempo, o mais célebre e o mais desconhecido dos poetas, e disso se queixava. Mas o seu ser já não era exato, era um mundo em si, físico e abstrato. Um mundo onde não havia distinção entre a obra e a vida, entre a ficção e a realidade. Então, eis um livro-testamento, como em outro momento houve um filme; um autorretrato literário que segue a tradição pictórica do espelho revelando o artista, os seus instrumentos e o seu método, enfim, o seu ato de criação. Wellington Júnio CostaA personalidade multifacetada de Jean Cocteau vive no movimento e do movimento. Qualquer apoio é fugaz. Cocteau é circulação pelos cabarés de Montmartre e pela Antiguidade Clássica. É bandoleiro e é Orfeu. Contra a fatalidade do mito grego invoca a liberdade do poeta de vanguarda. Pertence à família dos exagerados. “Eu não sou alegre, nem triste. Mas posso ser tanto uma coisa como outra e com excesso” ? lemos em A dificuldade de ser. Cocteau é relógio que bate as horas certas do improviso. Apaixonado, adora o sol. Do seu brilho e calor é que surgem as metamorfoses desejadas. Em poema, implora: “Sol, delicioso inferno, transforme minha pele cor-de-rosa em coração satânico”. Cocteau sabe que o poeta caminha na areia movediça. Basta o peso desmedido da pisada para afundá-lo. Por isso ele traz estampada no assombro a figura da morte.Silviano Santiago
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