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A reivindicação da arte política, de uma arte engajada na transformação social e política, pertenceu aos artistas da Revolução Soviética, «como se essa transformação fosse imanente à sua forma de praticar e conceber a arte; como se ela estivesse inscrita na própria existência da arte, enquanto prática e esfera da experiência – inscrita não só na sua actualidade, mas também numa certa tradição histórica».
Na concepção crítica de Rancière, o que singulariza a palavra Arte no século XVIII, por intermédio de Winckelmann, é o papel da história, mas também um lugar - a Grécia Antiga - e um sujeito, o povo. Um povo livre é um povo que não conhece a arte enquanto realidade separada. A arte comunista do séc. XX não pretende ser uma realidade separada, ela é, ao invés, a manifestação de uma vida livre, quer dizer, a manifestação de uma revolução da própria arte de viver. Reportando-se a Hegel, Schiller e Marx, a reivindicação comunista não conhece, por isso, a dissociação entre as formas e as esferas da experiência, nem conhece a separação que atribui uma realidade separada à arte e ao trabalho. Para Rancière, a linha oblíqua da arte comunista só se cumpre na medida em que ela se suprime como arte, fazendo com que a sua supressão se simbolize a si mesma, tornando sensível e visível a vida nova que ela produz, ao integrar a própria produção de coisas, de imagens e de símbolos.
Porém, ao examinar de perto a problemática desta linha, nas obras de El Lizzitzky, Rodtchenko, Varvara Stapanova, Gustav Klucsis e Tatlin, mas também no cinema de Vertov ou na pintura de Samokhvalov e Deineka, a relação entre estética e política vem configurar dois paradigmas distintos. Se a promessa colectiva das formas, no quadro da prática artística, permite construir um universo perceptivo no qual estas são percebidas como objetos úteis e elementos sensíveis de uma vida nova, ressurge, por outro lado, a administração de conteúdos realistas e socialistas que, justamente ao esvaziar a invenção formal e ao adotar a representação clássica, vem reconfigurar fórmulas de hierarquização, de separação e de representatividade política. A adequação imediata entre formas e conteúdos, entre realismo e ideia socialista, torna-se por isso problemática. A visibilidade de um mundo novo busca ainda e sempre a sua própria forma.
Procurando Existe uma Arte Comunista? (YMAGO ensaios breves)? Aqui você encontra tudo sobre este livro de Jacques Rancière em 5 de julho de 2021. Nesta página estão a descrição da obra, os detalhes da edição (43 páginas) e os formatos disponíveis para baixar: epub, pdf, lit, odf. O livro está escrito em Português. Se você gosta de Arte, Cinema e Fotografia, Arte, História da Arte, Crítica, explore também outros títulos da mesma categoria no Leitura em português. Veja ainda as outras obras de Jacques Rancière em nosso catálogo.
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